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Autor: Fabio Monteiro de Moraes
Características dos livros:
Editora: Editora Café com Sociologia
Selo: Editora Café com Sociologia
Ano: 2026
Edição: 1ª
Idioma: Português
ISBN: 978-65-87600-90-1.Nº de páginas: 190
Tamanho: 21x28cm
Peso: 250g
(In)Disposições racializadas e ensino de Sociologia
As relações étnico-raciais constituem, há décadas, um dos principais temas da Sociologia brasileira. A consolidação desse campo de estudos resultou de importantes transformações políticas, intelectuais e institucionais que deslocaram o debate sobre raça para o centro das reflexões acerca das desigualdades sociais, da cidadania e da educação. Nesse percurso, a escola passou a ocupar um lugar privilegiado e tem sido interpretada tanto como espaço de reprodução das hierarquias sociais quanto como ambiente de produção de resistências e possibilidades emancipatórias. Essas interpretações podem ser compreendidas como complementares. A compreensão da escola passa pela interpretação de diversos elementos, sendo a prática docente central.
Apesar desse avanço, permanece relativamente pouco explorada uma questão fundamental: por que professores submetidos às mesmas legislações, aos mesmos currículos e, muitas vezes, às mesmas condições institucionais, desenvolvem práticas tão distintas ao abordar as relações étnico-raciais? A resposta para essa pergunta não pode ser encontrada exclusivamente nos documentos oficiais, nas prescrições curriculares ou nas convicções declaradas pelos docentes. Ela exige compreender os processos sociais que moldam disposições, percepções e formas de agir ao longo das trajetórias individuais.
O autor optou por não concentrar sua análise apenas nas políticas educacionais ou nas prescrições normativas, deslocando seu foco para as condições sociais de produção das disposições docentes. Para isso, mobiliza a Sociologia de Pierre Bourdieu, especialmente os conceitos de habitus, capital e histerese, propondo um esforço de elaboração teórica voltado à compreensão das disposições sociais que orientam os docentes na abordagem das relações raciais como parte do conteúdo da Sociologia escolar.Essa opção confere à obra uma característica particular que a torna uma importante colaboração à Sociologia do ensino de Sociologia.O autor procurou colocar o referencial bourdieusiano em diálogo com a história das relações raciais no Brasil, com a produção das Ciências Sociais brasileiras, com os estudos sobre currículo e com as pesquisas sobre ensino de Sociologia. Desse diálogo emergem categorias analíticas próprias, entre as quais se destacam as noções de habitus racializado e de capital étnico-racial, formuladas como instrumentos destinados a interpretar a constituição social das disposições docentes diante da temática racial.Ao longo do livro, a análise articula diferentes escalas de investigação. A reconstrução histórica da formação das relações raciais brasileiras é acompanhada pela discussão dos debates contemporâneos sobre currículo, políticas públicas e ensino de Sociologia. Em seguida, essas discussões são confrontadas com dados empíricos obtidos por meio da análise documental, de entrevistas e da Análise de Correspondência Múltipla, permitindo uma interpretação, orientada pela sociologia de Pierre Bourdieu, de como diferentes propriedades sociais se relacionam com modos distintos de abordar as questões étnico-raciais em sala de aula.
O autor não reduz as práticas docentes nem às determinações estruturais nem às escolhas individuais. Ao contrário, procura compreender como trajetórias de socialização, posições ocupadas no campo educacional, experiências de vida, formações acadêmicas e formas de participação social se articulam na constituição de disposições relativamente duráveis, mas sempre suscetíveis a transformações produzidas pelas dinâmicas do próprio campo.Essa perspectiva contribui para ampliar um debate que, por vezes, tem sido conduzido a partir de oposições simplificadoras entre estrutura e agência, currículo e prática, classe e raça, reprodução e transformação. Sem negar a importância dessas categorias, o livro propõe examiná-las relacionalmente, reafirmando um dos princípios centrais da Sociologia bourdieusiana: os fenômenos sociais somente podem ser compreendidos pelas relações que estabelecem entre si.
Outro aspecto digno de destaque é a interlocução estabelecida entre diferentes tradições intelectuais. A obra dialoga com autores clássicos e contemporâneos da Sociologia, da Antropologia e da Educação, incorporando contribuições produzidas tanto no Brasil quanto em outros contextos nacionais. Ao mesmo tempo, preserva uma preocupação constante com a realidade concreta da escola pública brasileira, evitando que a discussão permaneça exclusivamente no plano abstrato da teoria.
Este livro dirige-se a públicos diversos. Pesquisadores encontrarão uma proposta analítica consistente, construída a partir da interlocução entre teoria sociológica e investigação empírica. Professores da Educação Básica poderão reconhecer, nas situações analisadas, desafios presentes em seu cotidiano profissional. Estudantes de licenciatura terão acesso a uma reflexão sobre a formação docente e sobre os processos sociais que atravessam o ensino das relações étnico-raciais.
A obra amplia o horizonte das perguntas que orientam esse campo de investigação. Ao fazê-lo, reafirma que compreender as práticas docentes exige compreender também as condições sociais que as tornam possíveis.
Trecho da apresentação escrito por Cristiano Bodart